Resumo do livro "O povo contra a democracia", Yascha Mounk

 


Olá pessoal!


Resolvi trazer um pouco das minhas leituras do mestrado, caso alguém tenha interesse nesses assuntos também.

Abraço.


Resumo do livro “O povo contra a democracia - por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la”

Autor: Yascha Mounk

Em razão da extensão do livro e da quantidade de informações trazidas, optou-se por um resumo/resenha crítica.

O livro está dividido em três partes: parte um - a crise da democracia liberal; parte dois - origens; parte três - remédios.

No primeiro capítulo, o autor demonstra como a democracia liberal está em crise no mundo atual. Para tanto, ele traz diversos dados que demonstram isso, especialmente com relação à opção/apreço da população, com base em duas faixas etárias e outros dados, pelos regimes democráticos e o quanto isso vem se alterando ao decorrer dos anos. Também descreve diversos fatos políticos mundiais que denotam esse movimento, tais como a eleição do presidente norte-americano Donald Trump, o que contrariou todas as expectativas dos analistas, e outras eleições na europa e américa latina. A tendência atual é por regimes populistas, sejam de esquerda ou de direita, o que coloca em risco a democracia liberal, sobretudo porque democracia e liberdade tornam-se valores passíveis de se auto-excluírem, o que até pouco tempo era algo imprevisível.

Explico.

É que, liberalismo e democracia sempre foram conceitos interdependentes e relacionados. Todavia, com as tendências demonstradas acima eles passaram a ser vistos de forma separada: tem-se admitido governos liberais que não são democráticos e democracias sem liberdade, nas quais prevalece a “tirania da maioria” (p. 30).

Já no segundo capítulo, o autor aponta 03 origens para o declínio desse modelo: as mídias sociais, a estagnação econômica e a identidade.

No que diz respeito às mídias sociais, o autor descreve como a evolução da tecnologia no decorrer da história alterou a nossa percepção sobre o conhecimento. Todavia, nada se compara às mídias sociais, que abrandaram de forma ímpar o monopólio da informação. Isso porque, passou-se a ser possível o compartilhamento de informações de forma incontrolável. Ocorre que essa potência, assim como favoreceu algumas democracias, como na chamada “primavera árabe”, também prejudica a disseminação de informações de qualidade, com as chamadas “fake news”.

A estagnação econômica também representa, para o autor, um motivo de queda da democracia liberal. Nesse sentido, ele faz um importante apontamento de que, de fato, a humanidade progrediu e mais pessoas têm acesso à qualidade de vida. No entanto, já há algumas décadas que isso está estagnado. As novas gerações, embora consigam manter um padrão de vida digna, não conseguem progredir, o que dá a sensação de que o governo vai mal. Nesse sentido, destaca-se:

“O que as democracias liberais precisam fazer para estender seu histórico notável de estabilidade pregressa? Possibilitar uma vida decente a seus cidadãos basta? Ou elas precisam ser capazes de tirar proveito da antiga promessa, implicitamente feita nas longas décadas de rápido crescimento da riqueza, de que cada geração estará muito melhor do que a anterior?” P. 194.

Outra origem apontada pelo autor é a questão identitária do conceito de “povo”. Ou seja, quem seria o povo em uma democracia? Neste tópico o autor expõe que, na Grécia antiga, por exemplo, embora existisse uma democracia, nem todos eram considerados cidadãos e podiam votar. Ademais, estrangeiros não podiam exercer esse direito. Isso era mais brando em Roma, onde estrangeiros poderiam se tornar romanos. No entanto, Roma não vivia uma democracia. Com isso, o Autor demonstra que, permitir a nacionalização de estrangeiros é muito mais fácil em governos autoritários, uma vez que eles, de qualquer forma, não terão direito de intervir nas questões governamentais. Contudo, isso fica mais difícil em governos democráticos, já que essas pessoas poderão vir a exercer algum poder político decisório. Nesse ponto, o autor também aponta que a europa fundamentou-se precipuamente em conceitos mono étnicos, ao passo que os EUA foi formado por imigrantes, pelo que sempre admitiu uma maior pluralidade racial. No entanto, segundo o autor, até um certo ponto:

“Mas, embora a diversidade étnica sempre tenha sido uma característica da experiência americana, a igualdade étnica nunca foi: durante a maior parte da história do país, muitos grupos étnicos minoritários foram abertamente reprimidos ou até escravizados. Em outras palavras, a história da Europa — e de outras democracias desenvolvidas fora da América do Norte — pareceu predestinar democracias como a Alemanha ou a Suécia a uma revolta contra a democracia multiétnica. A história dos Estados Unidos, por outro lado, pareceu predestiná-la a algo sutilmente diferente: a uma revolta contra uma democracia multiétnica que reconhece todos os indivíduos como verdadeiramente iguais”. P. 204.

Portanto, a pluri identidade norte-americana somente é tolerada se houver desigualdade entre as etnias. Nesse contexto, então, começa a intolerância entre as etnias na maior democracia do mundo. Dados interessantes trazidos pelo autor apontam que, as regiões onde mais se demonstrou repulsa aos estrangeiros, era onde eles estavam em menor quantidade. Segundo o autor, a pouca convivência com o diferente aponta para esse caminho.

Na terceira parte do livro, o autor indica os “remédios” para essa crise, quais sejam: domesticar o nacionalismo, consertar a economia e renovar fé cívica. Tudo isso com a união de forças.

No ponto em que defende domesticar o nacionalismo, o autor aponta que, o grande fluxo migratório e as tentativas de criar comunidades supranacionais, como a União Européia, trouxeram à tona um sentimento mais exacerbado pelo nacional. Nesse aspecto, o autor aduz que o nacionalismo talvez seja a força decisiva, assim como foi nos séculos anteriores. E aponta:

“A retórica importa: como a nação é, na famosa descrição de Benedict Anderson, uma “comunidade imaginada”, a forma como falamos dela tem o poder de afetar sua natureza.40 Líderes políticos que descrevem em termos inclusivos uma nação que tem um longo histórico de ser excludente podem dar uma contribuição verdadeira para a domesticação do nacionalismo.” P. 250

Para consertar a economia e retomar o progresso econômico, o autor aponta uma série de medidas, tais como: aumentar tributos, resolver questões habitacionais, reduzir as desigualdades, o que ocorreria preponderantemente com a qualificação da mão de obra.

Para aprimorar a fé cívica, o autor aponta uma série de medidas, sobretudo educacionais, para que a população volte a se engajar na “res pública”. Para tanto, aduz ser necessário reconstruir a fé na política, o que se dá, por exemplo, com o combate a “fake news”. Nesse capítulo, ouso discordar com a seguinte afirmação feita pelo autor, retirada da p. 285:

“Em suma, teorias da conspiração há muito são uma realidade contumaz da política. No entanto, o papel delas era mais marginal na maioria das democracias liberais. As razões para isso vão muito além da ascensão das mídias sociais: a difusão de teorias da conspiração era refreada, em certa medida, porque o governo era muito mais transparente e a maioria dos cidadãos tinha muito mais confiança nos políticos.”

Pelo menos no que diz respeito à realidade brasileira, parece-me que a transparência governamental, especialmente em tempos de internet, tem aumentado. Ao contrário, a confiança nos políticos reduziu justamente por conta dessa transparência, que vem desmascarando o jogo de poder. Não obstante, o autor entende que, em tempos passados, havia mais transparência…

Por fim, conclui o autor que, embora seja uma árdua tarefa, é possível restaurar a crença na democracia liberal.

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